Deparei-me com essa menina em frente a uma vitrine, toda sorridente, ela me parecia trazer a imagem de uma pessoa há muito conhecida.Seu outro eu refletia no vidro muito límpido, ao qual guardava aquele sonho que transparecia nos olhos azuis como um céu sem nuvem.
Ela sorria, gesticulava como se estivesse a ter respostas vindas por detrás daquele vidro. E eu ali extasiada a olhar tentando definir o que tanto a encantava. Confesso que por vezes pensei estar maluca, pois em pleno horário de expediente, eu ali absorta a olhar alguém que nunca havia visto, e muito menos sabia o que a prendia àquela vitrine.
Percebi pelas vestimentas, calçado, que era uma menina bem pobre, mas de pensamentos ricos e um sorriso que deixava qualquer tristeza envergonhada.
Observando-a ali, me lembrou uma fase de minha infância, em que todos os sábados “grudava" meu rosto em uma vitrine repleta de bonecas, que para mim pareciam todas vivas, que por vezes me respondiam, sorriam e me alegravam a pobreza vivida. E hoje eu ali uma executiva renomada, vestes refinadas, mas não mais a alegre menina de outrora com as pobres roupas, e a companhia das tão sonhadas “amigas” bonecas.
Um som estridente me fez voltar à realidade, e foi o som de uma voz arrogante, austera, interpelando a menina na vitrine, dizendo:
- Circulando, circulando! Aqui não é a sua costumeira “fila da sopa”, aqui só temos “coisas finas”, seu restrito paladar não saberia apreciá-las.
Ela antes tão sorridente, agora cabisbaixa se encaminhava para atravessar a rua. Aí foi que percebi que ela se enamorava dos finos doces de Fios de ovos, assim como eu antes das bonecas com cabelos dourados.
Chamei-a:
- Menina, venha cá!
Ela se virou, e deu para vislumbrar melhor aqueles lindos e meigos olhos azuis.
- Sim senhora, o que quer?
Perguntei-lhe:
- Quais desses você mais gostaria de ter em suas mãos e alegrar seu coração com o doce sabor da realização?
Respondeu-me alegremente:
-Esse senhora!Apontando para o menor que havia ali, um belo e dourado doce de fios de ovos e mel, que sem dúvida ao seu paladar seria o mais saboroso deles.
Disse a ela que esperasse por um instante ali mesmo onde estava. Adentrei a loja, fiz questão que me atendesse o arrogante senhor. Pedi vários daquele que a havia atraido, e fiz com que ele fosse até lá,e os entregasse a “pobre” menina. Constrangido os entregou, fazendo cara de quem comeu, mas não gostou.
Agradeci, e me encaminhei em sua direção,que me recebeu com o mesmo sorriso que antes havia visto naqueles lábios infantis.
Olhando-me no fundo dos olhos, disse-me:
-Obrigada! Sabe senhora, eu estava aqui pensando, olhando esta vitrine; se seria possível uns doces tão saborosos se transformarem em desejos realizados. Mas depois, quando a senhora parou aqui bem atrás de mim,pensei que os realizados seriam as pessoas que os possuíssem.
Estendendo a mão me entregou o mais dourado deles, dizendo:
- Aceite, pois percebi a alegria voltar a seus olhos quando realizou o meu desejo. Quem sabe o seu não seja o mesmo que o meu!Com aquele sorriso sincero, saiu andando, quase flutuando, e sumiu na multidão.
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